Quilt "Rose", de Marcia Baraldi

Entrevista: Marcia Baraldi

Numa entrevista ampla sobre sua trajetória com reconhecimento no Brasil e no exterior, Marcia Baraldi comove pela autenticidade em suas respostas. Motivo de orgulho para o quilt brasileiro, Marcia nos brinda com um relato completo que representa importante registro da história do crescimento do quilting no Brasil.

Márcia, como o ato de quiltar entrou para a sua vida? Você tinha alguma experiência com a máquina de costura antes de aprender e evoluir no quilting?

O ato de quiltar entrou na minha vida em um momento em que eu estava em busca de uma terapia. Eu não tinha nenhuma experiência com máquina! Tanto é que eu fui fazer o curso de patchwork para aprender a costura reta porque as minhas costuras não saíam retas e isso era um desafio para mim. Fazendo o curso de patchwork depois de dois meses surgiu uma vaga para fazer um workshop de quilting. Fui fazer como uma aprendiz, como uma iniciante, eu nem sabia ao certo o que era quilting. Mas eu gostei muito do quilting. E a partir daí eu comecei a buscar literatura e cursos para me especializar.

Quando eu vou em busca de aprender algum assunto, seja ele qual for, eu realmente procuro todas as informações possíveis. Uma das fontes que recorri e que mais gosto foram os livros, mas os cursos presenciais e online também fizeram a diferença. Fiz vários cursos.

Foi dessa forma que eu aprendi: estudando, praticando e fazendo aulas. Não posso dizer: “ah eu sou autodidata”, não, não sou! Eu realmente gosto de fazer aula, gosto ter as aulas presenciais, gosto de aprender com professoras e reconheço o valor de cada uma que passou pelo meu aprendizado. Não aprendi do nada, eu realmente me capacitei.

E sim, é possível aprender a quiltar sem ter experiência nenhuma. Eu aprendi quando mal sabia costurar reto então, é possível. O quilting não é um “bicho de sete cabeças”. É importante entender a diferença entre quilting e costura e aí sim tirar esse bloqueio da nossa vida.

Você é uma das quilters brasileiras mais premiadas em festivais nacionais e internacionais. Como foi ganhar um prêmio pela primeira vez? A sensação é sempre a mesmo ou cada concurso é diferente?

Sim, tenho vários prêmios. E o primeiro prêmio, claro, foi muito especial! Estava no Festival de Gramado, festival que eu valorizo, acredito muito. Temos excelentes cursos e professores lá e é onde eu sempre busquei me especializar. Uma das fontes de especialização foi lá. É um festival pequeno, não tem muitas vendas de produtos, mas tem muito para ensinar. Com cursos maravilhosos e exposições divinas, é onde eu busco o desejo de criar e de crescer cada vez mais.

O primeiro prêmio foi primeiro lugar na categoria colcha e foi muito lindo, foi mágico, porque eu não tinha a menor pretensão. Chegar lá e receber um prêmio de primeiro lugar e uma menção honrosa em outro trabalho enviado foi especial mesmo! Mas eu realmente mandei aqueles trabalhos na busca de especialização, com foco na avaliação. Acho que o mais importante do concurso não é o prêmio e sim é a avaliação que você recebe. Eu amo mandar trabalhos para concursos que enviam um relatório com a avaliação apontando onde você pode melhorar e onde você está bem. De verdade assim: quando o trabalho premiado chega numa caixa, recebido de volta de um concurso, antes de eu olhar para a roseta eu corro buscar a avaliação. É assim até hoje, porque acho que a gente sempre pode melhorar, a gente sempre pode fazer melhor, hoje melhor do que ontem! Sempre!

Prêmios internacionais recebidos por Marcia Baraldi

Como você lida com a expectativa de enviar uma peça para um concurso?

Essa é uma pergunta interessante porque a minha principal expectativa é sempre buscar me avaliar, ver onde eu posso melhorar, como eu respondi na pergunta anterior. Então, a minha expectativa atual é de ver a minha peça exposta. Eu tenho mandado alguns quilts para o exterior e quando é feita a inscrição para esses concursos a primeira etapa é ele ser aceito ou não, através de fotos. E se ele for aceito significa que já recebeu uma pré-avaliação e que já está no nível dos selecionados. Depois é enviado o Quilt para o concurso e aí ocorre uma nova avaliação para ser exposto ou não. Portanto só o fato dele estar na exposição significa que está entre os finalistas e isso pra mim é maravilhoso, é realmente mágico saber que meu quilt está exposto ao lado dos trabalhos das maiores quilters do mundo!

Depois de tantos prêmios, você ainda sente a pressão da superação?

Não, não sinto a pressão da superação. Hoje em dia eu estou sentindo a pressão da execução! Estou com pouco tempo para executar quilts então isso é que está me pressionando muito. Eu realmente quero dedicar um tempo maior este ano para produzir mais. E depois de produzir – e eu tenho isso bem trabalhado dentro de mim – eu tenho certeza que posso me superar, porque sei que o quilting é isso, que cada dia é sempre melhor, “hoje é melhor que ontem”

Você criou uma metodologia de ensino de quilting em máquina doméstica que rapidamente conquistou todo o Brasil. Como é formar outras quilters?

Eu realmente acredito que compartilhar é multiplicar, acredito nisso do fundo do coração! Então, pra mim, formar novas quilters é mágico! No ano passado, com a agenda lotada e o tempo muito justo, eu não consegui produzir para o concurso de quilts do Festival de Gramado. Mas foi o concurso em que eu fiquei mais feliz, porque eu me senti presente de outra forma, de uma forma especial. Não tinha nenhuma peça minha no concurso, mas nas várias peças inscritas por minhas alunas foi possível perceber que estava presente um toque, uma dica que eu dei ou aqueles riscos que eu passei pra elas durante os cursos. Foi muito emocionante ver o nível que o quilting atingiu no Brasil. Então é muito bonito saber que eu faço parte dessa história! A cada dia que eu levanto para dar uma aula ou curso eu me levanto feliz, me sentindo contente com o convite para ensinar.

Como a criação de ferramentas e itens para facilitar a prática de quiltar surgiu na sua trajetória?

Eu notei que no mercado nacional não tinha muita coisa que eu precisava e tudo era improvisado. E eu não gosto de improviso. Gosto das coisas certinhas, das coisas bem feitas. E a primeira dificuldade que eu encontrei foi a questão das luvas porque eu não conseguia quiltar com as luvas para quilting que existiam no mercado. Minha dificuldade era por elas serem fechadas. Assim, o primeiro produto que eu desenvolvi foi a luva para quilting. Eu acreditava tanto que cedi à exigência da indústria de produzir 200 pares. Mandei fazer as 200 morrendo de medo que fosse demorar meses para vender! Mas graças a Deus foi um sucesso e é o item que eu mais vendo até hoje: aqui no Brasil, na América do Sul, na América do Norte e na Europa.

Todos os itens desenvolvidos por mim são ferramentas que eu uso no dia a dia. São facilitadores que eu não encontro no mercado e que eu sinto necessidade de usar no momento do quilting.

Réguas criadas por Marcia Baraldi para facilitar o quilting

Você é autora de dois livros, inclusive com edição em espanhol, onde divulga suas técnicas e dicas. Qual a importância dessas publicações desenvolvidas por você para os mercados nacional e internacional?

Novamente eu venho dizer que o primeiro livro surgiu também de uma necessidade própria porque eu só encontrava bibliografia internacional, principalmente em inglês, e para minhas aulas eu queria que levar um material pedagógico para as alunas e acabei fazendo uma apostila improvisada. Eu me recusava a concordar com isso e falei para mim mesmo: “ – Não, não é possível que seja tão difícil fazer um livro”! E iniciei uma busca por patrocínio: eu realmente busquei patrocínio em todas as grandes marcas de máquinas, em marcas de tecido e em indústrias do ramo, eu busquei muito e não consegui. Mas eu estava decidida: “ – vou produzir esse livro porque as minhas alunas precisam de um material de qualidade para se desenvolver no quilting”. E foi por conta disso, para não levar aquelas apostilas improvisadas, feitas com baixa qualidade, com folhas soltas que poderiam ser perder ao longo do tempo, que eu desenvolvi o livro.

O convite para a versão em espanhol foi uma surpresa vinda de uma equipe mexicana que estava visitando o Brasil, conheceu o meu trabalho, gostou muito, me convidou para dar aula lá e eu como um carinho, como uma retribuição, pensei: “ – Ok, eu vou dar aula, mas eu vou traduzir o livro. E então foi muito lindo poder chegar lá, fazer o lançamento da edição em espanhol, ser homenageada no México como uma quilter e como pessoa porque eles conheceram toda a minha história e contaram para todas as alunas, falando: “– olha, vocês também podem, independente de onde você vem, você pode chegar aqui”. Isso foi muito lindo! Recebi uma placa de homenagem que me deixou muito lisonjeada e agradecida. E com a versão em espanhol eu consegui atingir um público muito maior da América Latina toda e aí veio o convite para dar aula no Chile, no Uruguai e na Argentina, e graças a Deus, tenho tido muito sucesso com a edição em espanhol do meu livro.

Homenagem recebida durante lançamento da edição em espanhol do livro “Quilting Livre Desvendando Segredos”

Depois disso veio o livro de réguas que foi outra necessidade surgida quando eu consegui industrializar, para nós, aqui no Brasil, um pé de quilting para uso com réguas em máquina doméstica, técnica comum para máquina longarm. E então foi um boom, foi uma divisão de águas no mundo do quilting: quilting com réguas x quilting sem réguas. O quilting com réguas não veio para substituir o quilting sem réguas, mas vem para profissionalizar e para facilitar. Então pensei: não, não é possível que não haja um material didático à altura, porque a gente precisa de um bom material sobre o assunto. Procurei na literatura internacional e não encontrei nenhum e produzi o primeiro. E realmente é o primeiro! Com um ano de lançamento do livro, depois de uma série de aulas em Miami, as quilters americanas se encantaram com o livro a ponto de comprarem mesmo em português, mas várias pessoas me pediram para traduzir para o inglês e eu aceitei o desafio. E então veio o convite para o lançamento na Flórida do livro na versão em inglês em junho 2017. Imaginem o quanto de felicidade com esse reconhecimento!

Sua metodologia atravessou fronteiras internacionais. Como é repassar seus conhecimentos em outros idiomas?

É um desafio, pois minha fluência é somente na linguagem do quilting. Não tenho fluência em inglês nem em espanhol, mas compreendo e consigo entender e responder a maioria dos questionamentos das alunas, mas para dar a aula completa busco ajuda de intérpretes sem o menor constrangimento. E a aula realmente flui, consigo passar minha essência e todo o meu amor pelo quilting e despertar nas alunas o interesse em aplicar a técnica.

Márcia, você é inspiração para muitas pessoas que buscam o aperfeiçoamento na arte de quiltar. O que você diria para quem deseja seguir seus passos?

Diria que eu sou a prova que podemos iniciar a quiltar a partir do zero! O principal é não nos compararmos com o perfeito e sim com nós mesmos, ou seja, hoje será melhor que ontem. Quilting é técnica e treino. Conhecer a técnica e treinar é o caminho.

Designer, quilter, mestra e autora! Qual seu desejo mais intenso para o futuro?

O que me move é espalhar conhecimento. O desejo mais intenso é realmente capacitar pessoas, ser o agente transformador. Assim como o quilting mudou minha vida e da minha família, sinto que devo ao universo essa missão!